segunda-feira, 29 de março de 2010

Flores horizontais

A brancura do papel, era difícil encará-la torpe de remédios.

Olhava para as flores daquele jardim que, visto de dentro, era quase engolido pela janela do quarto, único cômodo da casa.

Seu corpo nu, entregue, desnudava partes outras que não pretendia expor de si, de uma vida podada a golpes fortes demais para que lhe arrancassem mais do que apenas os espinhos.

Do lado de fora, sentindo a terra molhada no rosto, vendo-a grão a grão, olhos semicerrados, a paisagem era outra. Olhava para os pequenos caules, tão delicados, envoltos por pequenas e grandes folhas. Flores horizontais.

O orvalho gotejava em todas elas.

A sensibilidade tão aflorada às vidas que com a sua haviam cruzado. Flores da vida, fertilizadas e desplantadas por carícias, tapas, pontapés.

A caneta tremia na mão sobre os reflexos do luar, pretendendo endereçar palavras e sentimentos a quem não os tinha, a quem, não sabia, neste último momento, em seu despetalar que dispensou a extrema unção.

(Este texto se baseou em "Flores horizontais", de José Miguel Wisnik. Desafio proposto pelos amigos e colegas "poetinhas" a partir de sorteio de músicas escolhidas por nós).

terça-feira, 16 de março de 2010

Dita

Quando ela chegou com aquelas pálpebras murchas, cheias de água, falando, babando, choramingando pelos cantos da boca, me deu um nojo que só. Que desgosto.
Ela resmungava, pele escorrendo áspera, voz rouca agargantada, choro engolido e regurgitado.
Dizia que sua felicidade estava em mim e que eu desse outra chance pra nós dois. Só assim o mundo teria razão de existir, me dizia. Dizia.
Ditinha, me deixa. De ti eu tenho é nojo. Um nojo que só. E ela nem sabia. Ela sofria, sofria como um porco indo para o abate. Nem as pelancas gordas eu aproveitaria.
Me dava era nojo de mim por ter passado tempo com a desgranhada. Não valia nada. Mulher chocha, galinha choca. Eu queria era mostrar pra ela o caminho do abismo, que sumisse, que escafedesse, que se apagasse das minhas lembranças a existência dessa mula.
Some da minha vida, sua vaca! Ela chorava. Não acreditava no que eu dizia, era máquina, não pensava. Ela não entendia. Existência alguma.
Dita não tinha palavras, ela tremia. Ela soprava, bufava. Foi se acalmando, tremelicando, fedendo. Aquele suor abafado do sovaco, das pelancas. Dita e suas ancas. Que ancas! pensava eu havia meses. Agora eu tinha nojo, vomitava, se chegasse perto.
Mulher úmida, poço raso. Fodia, urrava, de novo e de novo, não tinha prazo. Acho que foi disso que a Dita gostou. Homem algum chegava perto dela. Eu, o trouxa, o pau duro, ela cadela.
Se pensasse, teria me prendido ali com o bucho cheio. Nem barriga d'água a desgraçada pega. 
Peguei foi a bengala, ou você sai daqui ou eu te esmigalho. A Dita parou. Chorou. Ficou ali me olhando. Espasmos que chacoalhavam o ranho dependurado pelo nariz. Os olhos de repente ficaram vazios. Estado de choque. A Dita saiu. Pé ante pé ela saiu.
Eu continuei sentado. Desgraçada. Te vá.
Atravessou a porta, roçou no pilar.
Eu nunca mais vi a Dita.
Eu conto essa história pra ver se ela some. Mas a Dita não vai.

sábado, 6 de março de 2010

consumo

Cheguei. Ele não sorriu. Desceu do carro e entrou no meu. Avancei para lhe dar um beijo (humilde) no rosto. Indicou o caminho de sua casa por ruas erradas dizendo que eu tirava sua concentração.

Chegamos. O pitbull também ignorou a minha presença (pelo menos não havia sido ele quem me convidara para ir até ali).

Andava pela casa à minha frente como se eu morasse no mesmo lugar. Me senti como um cão abandonado que segue o pretendido dono, pidonho.

Ligou o computador. Teclava nervosamente. Sentada à beira da cama, via sua cabeça, seus dedos, atrás de mim, projetados em silhueta no vértice da parede, enormes, Nosferatu.

Vou embora.

Por quê?

Por que me convidou para vir se não queria que isso acontecesse? As coisas são simples, ninguém te obrigou a querer a minha presença.

É que eu estou ocupado, tenho muita coisa pra fazer antes de viajar. Desculpa.

Vou embora.

Por quê?

Me desculpa, mas eu não aguento (nem mereço) tanta indiferença.

Ta certo...

Desespero internalizado. Esse era o medo que me fizera não dizer nada. Fiquei ali, à espera, pensando em nunca mais fazer o mesmo, me afundando, me dispondo o quanto não devia, por mim, por ele. Diferentes histórias, expectativas, aconteciam simultaneamente. Um achando que o outro não percebia suas intenções, o outro, pensando em mostrá-las, desnudá-las o quanto as pudesse enxergar.

Não fujo da verdade. Quero que me jogue na cara, me esbofeteie e cuspa.  É da sua saliva que eu tiro a minha força. Dessa vez – mais uma delas – não foi. Esperei a sua disposição em vir se deitar. Nossas palavras se cruzavam, ritmadas, mas, por fim, consumidos, nos distanciamos. Eu perfurada, vazada, tangida. Ele fechado, lacrado, lavado, incólume.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

quando o mar me engolir

eu vou rolar nas ondas, me afogar em conchas até sucumbir.
então, quem sabe, a água em sal me salve, feche o corpo e cure o mal que eu me mesma me fiz.
os grãos hão de esfolar as impurezas desta alma, arrancar-me a carne, deixar-me imprópria para o consumo sem alarde.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A beleza das nuvens

Um dos poucos dias em que tenho descanso, em que o tempo pára e me permite sentir a poesia da vida. As nuvens estavam bonitas, grandes, fofas, densas. A luz do sol refletia contornos dourados num céu de fundo azul forte.
Elas se moviam como em um filme em câmera lenta, ou em imagens corridas de fenômenos naturais como o brotar de uma flor. 
Deitada no quintal, pensava em qual seria minha trilha sonora para aquele experimentalismo.
Da janela do banheiro logo atrás de mim surgiu um peido.
A vida é bela e imprevisível demais. O acaso, capaz de compor paisagens maravilhosas.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Entreguei-lhe o livro e disse que, desse sim, ele gostaria. Depois de ter lido um de meus autores preferidos - mas cuja obra entendo ser bastante específica, variável e, talvez, de um humano denso demais para pessoas leves na vida -, recebia uma das melhores narrativas de um dos melhores criadores literários deste tempo. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.
Dizia a ele que não tomasse cuidado. De um furacão nunca nos esquecemos. Entramos na tormenta e tudo se passa de forma apaixonante, embriagada, doentia, capaz de remexer as entranhas.
De um capítulo  a outro é difícil parar. Sua falta é "como uma nuvem sinistra de abandono" que se estaciona em cima de mim. O Marçal nos amarra, obriga o leitor a continuar ali. Talvez seja metalinguagem. Me senti como um Cauby viciado em uma Lavínia. Queria viver aquela paixão, aquela doença.
Lembro de uma amiga que fora passar dois dias em casa. Impossível sairmos para uma cerveja, já que havia começado a ler o livro. Esperei que terminasse. Passara o dia grudada naquelas páginas. Imaginei o que sentiria ao pegá-lo, enfim. Precisava disto agora. E a cada dia suas palavras me convencem mais de o Marçal ser  um dos melhores autores.
Dele, eu recebo as piores notícias, uma tormenta sem a qual não há graça viver.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

0:00

acordo com esta tosse que quase me faz sufocar e penso que, se morresse aqui sozinha, numa noite baixa, não haveria quem pudesse notar. nesta ilha branca, isolada num quinto andar, me roda na cabeça as possíveis razões por sentir a energia vibrar tão pouca. minha luz, a força e referência do meu caminhar, parece arrefecer por sua própria protetora se esvair, aos poucos se distanciar. aquele pilar, a ponte em pedra, a âncora que finca mar, adquire sua leveza que paira e se esconde - fugidia - em seu mundo que, na verdade, em toda minha vida, nunca quis mostrar.